maio 20, 2012

Abel. Feiúra locomotiva.


Entao sentiu vontade de pintar dessa vez algo feio. Algo tão irritante como uma serra. Algo perturbador. Algo realmente irritante, na pior ascepção da palavra. Algo como um cortador de grama durante uma manhã de ressaca. Sua paleta estava um pouco desatualizada para isso. Sua morbidez tinha andado adormecida por tanto tempo. Tempo demais. Hora de voltar para o mundo real, Abel. Misturou as cores quase ramdomicamente, fez verdes-musgos, cinzas-mofos, ocres incríveis. Um marrom bem chato.
Riu-se. Isso parece com quando eu queimava os insetos junto com os amigos naquela infância diabólica. Acho que as cores agora são suficientes. Cores demais seria bonito. Aquela panacéia vai ser horrorosa. Uns tos pareciam como que assados por tempo demais. Farei repetitivo, a repetição me cansa, e parece cansar todo mundo.
Colocou um cd de rock meio punk. Começou a pintar o quadro. Cada golpe do pincel vinha pincelado com um sorriso sarcástico, uma cara de nojo, desdém, um orgulho desvairado, ou até arrogância. Tudo ia sendo colocado pouco a pouco na tela odiada. Abel mais colava esses sentimentos que pintava qualquer coisa propositalmente.
Pensava insistentemente em fazer ficar feio, obsecivo. Deixava partes faltando e parava na metade de objetos, pintava outros por demais, jogava o pincel sem limpá-lo na paleta, misturando as cores sem critério. Foi ficando cada vez mais frenético, e bateu a paleta na tela, sujando-a em padrão. Bateu denovo. E denovo. Gostou do jeito como aquilo estava ficando. Estava virando mesmo uma panacéia horrorosa. Bateu uma vez mais, com menos entusiasmo. Percebeu então que não segurava o pincel. Pegou ele do chão e limpou-o. Quando esfregava o pincel em um montinho de tinta que sobrara resistente as pancadas na tela, começou a dessacelerar o ritmo, olhou por muito tempo para a tela, parou de esfregar o pincél já mais que embebido em tinta o suficiente, e guardou os equipamentos.
Aquilo perdera a razão. A graça passou tão rapido como chegou. Chegou quase a pensar em sua infância denovo, quando depois sozinho arrependera-se das asas dos besouros arrancadas e inconsertáveis. Agora um cheiro horrível subia de um dos apartamentos abaixo, e o irritava. O quadro também tinha conseguido o que fora feito para fazer, e o irritava. Droga! Sozinho, arrependia-se e irritava-se.

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