novembro 30, 2010

Abençoe-me com essa minha falta de memória.
Crie-me todo dia sobre novas perspectivas.
Dê-me experiências, mais uma vez experimentadas.
Jogue-me in the flow, the evenflow.
Lance-me além do que antes já vi, e pegue-me de volta.
Quando eu me recordar, apague o tédio e umas poucas coisas mais.
Brinde-me então com um poquinho mais de vida,
de ardor.

novembro 20, 2010

Pai,

Notas fortes de guitarra
Me transportam para o apartamento frio do primeiro andar,
de brancas paredes e piso de madeira barulhenta.

E, inevitavelmente eu me lembro de você.

Não como me fazem as músicas melancólicas sem cor...
Vieram à mim lembranças grandemente cromáticas
Então eu tirei meu dia pra saudade.

Ó meu pai, lembro do seu peso afundando as tábuas do chão,
Anunciando sua saudosa chegada.
Com voz de trovão,
O que diria você de antropologia?
Me daria uma bronca pelos cigarros?

Com certeza você leria dos meus trabalhos...
com certeza.



All those moments will be lost in time
like tears in the rain

novembro 13, 2010

Ensaio sobre outras dimensões

Difícil quando o tempo foge de você.
Você já, alguma vez, talvez por acaso ou por drogas talvez, já sentiu que a realidade lhe escapava aos dedos?
Sim, sim, eu concordo. É o que a maioria das pessoas dessa nossa pós-modernidade, contemporaneidade individualizada e dessubjetivada, quer, em última e primeira estância. Ora, o que venho aqui dizer, é que não é o que eu quero. Sabe, muitas pessoas me consideram "doidinho", ou me olham nos olhos e acham mirarem alguém que acabou de fumar maconha.
Mas a verdade é que não fumo maconha à mais de um ano. E não foi nem um pouco difícil de largar, diferente do que as perguntas frequentes frente à essa confissão me fazem perceber.
Acho que estou indo rápido demais, mas, enfim, isso não é um poema, e essa não é uma conversa. Não tão-só uma conversa convencional, ao menos.
Comecei com o pé errado talvez, já respondendo supostas perguntas que só poderiam vir depois da explicação inicial, então abusarei um pouquinho da temporalidade descritiva.
Ontem, mais uma vez, infelizmente, é verdade, eu me senti deslocado denovo. Não socialmente, que fique claro, esse eu até gosto. Mas deslocado com algo que deveria ser o grande porto seguro, o aliviador e segurador por definição: o tempo.
O tempo cura tudo.
Dê-lhe um tempo para pensar.
Com o tempo, tudo se conserta e o tempo põe tudo em seu lugar.
Até mesmo os sentimentos de pertencer dependem desse amigo apressado que todos partilhamos na viagem. É o motorista do ônibus, e a própria estrada. Mas chega de devaneios.
De volta ao ensaio. Me senti deslocado com o tempo. É com certeza difícil de explicar como foi: foi mais um deslocamento, como a legenda do filme que não está sincronizada, mas por muito pouco, algo lhe aflige, mas você não bem percebe se está para frente ou para trás. O tempo, a meu ver, é a legenda do filme da realidade. Ou o inverso também pode ser verdade, embora não mude muito minhas considerações.
Melhor ainda: é o correr do tempo.
Esse desalinho faz a vida parecer um filme, e isso não é bonito. Toda a parafernalha cinematográfica que faz as pessoas gostarem de aludir a sua vida é que os filmes possuem o roteiro. Pode até ser conceitual, mas serve de contraste quando você pensa que é só um filme, a sua vida "real" está do outro lado do vidro antes curvo, agora reto, das nossas televisões.
Eu já tenho esse sentimento faz uns tempos. Já o senti muitas vezes e já tentei anestesiá-lo, até perceber que, ele, por me fazer sentir longe, expectando, anestediado, não deveria ser tratado com anestesia.
Meu inconsciente já havia percebido isso bem antes de mim, e minhas experiências com as realidades alternativas do universo ébrio já não me davam o alívio e a satisfação de antes. Pois agora, não eram contrastivas mais. Se a minha vida nesses momentos assumia um correr alternativo, e a realidade, um novo ponto de vista. Me entorpecer era apenas, na maioria das vezes, pouco mais que um passatempo: a dessincronia continua.
Assim, facilmente parei com as borracharias com fim em si mesmas.
E é por isso que também ão consigo largar o cigarro.
O cigarro, em vez das drogas, é um vício que me atinge, por ser da mesma importância que a realidade, ele é experimentado aqui e já era antes dos lapsos temporais, é meu link com uma percepção do real que sem saber eu perdi.
Não quero assumir que há uma percepção do real de forma alguma normal.
Todos somos, de maneira ou de outra, ébrios e sóbrios. Estamos sempre boiando em um lindo sensorial que nos guia segundo uns ou outros princípios quânticos e/ou caóticos.
Dimensões alternativas são possíveis e por isso, plausíveis.
E talvez, apenas talvez, como sempre,
Nós já as experimentamos,
Sem que esquecer que nossos sentidos estão entorpecidos demais para perceber,
e nossa mente,
nublada demais para concebermos.