maio 14, 2012

Abel - da série de literatura capitular


Os ônibus da minha cidade costumavam ser azuis. Um projeto governamental para a afirmação da identidade cultural necessária a uma projetada metrópole. Por que não? Os ônibus de Londres são vermelhos, que grande idéia, não? Ora, funcionou muito bem enquanto os próprios administradores velhos e ranzinzas não cansaram. Aqueles benditos teimosos. E aí veio a nova geração, os pobres coitados que tatuam em suas costas, “ousadia”, “coragem”, “inovação”. Há uma grande diferença grande algo necessário e algo que se diz necessário. A diferença de referencial. O que se diz necessário não passa de alguma coisa ou idéia que soa tão bonita que eleva egos mesquinhos e pouco sabidos. Não sou conservador, pelo contrário. Sou pragmático, não vejo como mudar algo que deu e dá certo, apenas pra dizer que se fez algo “novo”, possa ser positivo.
Assim que eu continuaria devaneando, não fosse um dos próprios ônibus azuis que passou ao lado e me surpreendeu. Junto com as novas linhas coloridas, que eu admitia serem muito úteis, as linhas azuis continuaram, com um tom um pouco mais jovial.
Quarenta e quatro, dois. Pagou a passagem barata absurdamente cara. Eita!

No onibus, ja bem mais conformado com o mundo, o mundo voltou a correr com sua velocidade normal e comecei a aproveitar as repentinas mudanças de humor que me faziam assim tão filosófico e paranóico. Olhava a paisagem como que pintada, de carmesim e laranja e silhuetas quase verdes de tão escuras.Como é fina a linha que dividi tudo que é insuportavel e aquilo que está se cozinhando para virar nostalgico em alguns anos, ou algumas catástrofes depois! Hoje pensava em quanto as viagens de onibus lhe atrasavam e irritavam, mas hoje, admitia que de certo modo se lamentava que a viagem seria curta demais. Afinal ele nunca tinha se encaixado em nenhum sistema de rotinas, vivia sempre em momentos e épocas em que ele podia entender esses momentos. Com tudo que é bom e que é ruim que resultava disso.
Ele não conseguia mudar nem lutar contra sua natureza.
Pare de se lamentar em terceira pessoa! Eu sei aonde isso leva, não se deixe voltar àqueles lugares.
Irritado por ter estragado o proprio momento, Abel agora ansiava chegar logo em casa.
Pelo que lhe parecia, esse era apenas mais um dos dias em que tudo que passava por seus olhos por ali entrava e se juntava a dança frenética de todas as coisas que rodopiavam em sua mente supercoloridas, e rapidas demais para que pudesse concentrar em alguma, mas que passavam por tempo suficiente para que sua imagem pudesse mostrar sua cores. Como carros passando depressa.
Pelo jeito não dormiria assim tão facil hoje. Não é nada demais, já vi piores. Calma. Pense pequeno.
Fazendo tudo com uma vagareza definitivamente incomum mas já familiar, prerare o café, troque de roupa, ligue a televisão, abra a geladeira e a feche denovo... concentre-se!
Assim, mantendo-se longe dos proprios precipícios, ele não pintou nada hoje, e durmiu no sofá bem mais facilmente do que imaginara.

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