Os
ônibus da minha cidade costumavam ser azuis. Um projeto governamental para a
afirmação da identidade cultural necessária a uma projetada metrópole. Por que
não? Os ônibus de Londres são vermelhos, que grande idéia, não? Ora, funcionou
muito bem enquanto os próprios administradores velhos e ranzinzas não cansaram.
Aqueles benditos teimosos. E aí veio a nova geração, os pobres coitados que
tatuam em suas costas, “ousadia”, “coragem”, “inovação”. Há uma grande
diferença grande algo necessário e algo que se diz necessário. A diferença de
referencial. O que se diz necessário não passa de alguma coisa ou idéia que soa
tão bonita que eleva egos mesquinhos e pouco sabidos. Não sou conservador, pelo
contrário. Sou pragmático, não vejo como mudar algo que deu e dá certo, apenas
pra dizer que se fez algo “novo”, possa ser positivo.
Assim
que eu continuaria devaneando, não fosse um dos próprios ônibus azuis que
passou ao lado e me surpreendeu. Junto com as novas linhas coloridas, que eu
admitia serem muito úteis, as linhas azuis continuaram, com um tom um pouco
mais jovial.
Quarenta
e quatro, dois. Pagou a passagem barata absurdamente cara. Eita!
No
onibus, ja bem mais conformado com o mundo, o mundo voltou a correr com sua
velocidade normal e comecei a aproveitar as repentinas mudanças de humor que me
faziam assim tão filosófico e paranóico. Olhava a paisagem como que pintada, de
carmesim e laranja e silhuetas quase verdes de tão escuras.Como é fina a linha
que dividi tudo que é insuportavel e aquilo que está se cozinhando para virar
nostalgico em alguns anos, ou algumas catástrofes depois! Hoje pensava em
quanto as viagens de onibus lhe atrasavam e irritavam, mas hoje, admitia que de
certo modo se lamentava que a viagem seria curta demais. Afinal ele nunca tinha
se encaixado em nenhum sistema de rotinas, vivia sempre em momentos e épocas em
que ele podia entender esses momentos. Com tudo que é bom e que é ruim que
resultava disso.
Ele
não conseguia mudar nem lutar contra sua natureza.
Pare
de se lamentar em terceira pessoa! Eu sei aonde isso leva, não se deixe voltar
àqueles lugares.
Irritado
por ter estragado o proprio momento, Abel agora ansiava chegar logo em casa.
Pelo
que lhe parecia, esse era apenas mais um dos dias em que tudo que passava por
seus olhos por ali entrava e se juntava a dança frenética de todas as coisas
que rodopiavam em sua mente supercoloridas, e rapidas demais para que pudesse
concentrar em alguma, mas que passavam por tempo suficiente para que sua imagem
pudesse mostrar sua cores. Como carros passando depressa.
Pelo
jeito não dormiria assim tão facil hoje. Não é nada demais, já vi piores.
Calma. Pense pequeno.
Fazendo
tudo com uma vagareza definitivamente incomum mas já familiar, prerare o café,
troque de roupa, ligue a televisão, abra a geladeira e a feche denovo...
concentre-se!
Assim,
mantendo-se longe dos proprios precipícios, ele não pintou nada hoje, e durmiu
no sofá bem mais facilmente do que imaginara.
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